{"id":136,"date":"2020-12-08T14:51:36","date_gmt":"2020-12-08T17:51:36","guid":{"rendered":"http:\/\/larvatusprodeo.com.br\/?p=136"},"modified":"2020-12-08T14:51:38","modified_gmt":"2020-12-08T17:51:38","slug":"hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/2020\/12\/08\/hoje\/","title":{"rendered":"Hoje"},"content":{"rendered":"\n<p>(Para Marielle Franco)<\/p>\n\n\n\n<p><em>Hoje, trago em meu corpo as marcas do meu tempo, meu desespero, a vida num momento, a fossa, a fome, a flor, o fim do mundo (Taiguara)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje \u00e9 dia 14 de mar\u00e7o do ano de 2018. Anivers\u00e1rio de Albert Einstein, gra\u00e7as a quem sabemos que E = mc2. H\u00e1 algum tempo estamos no s\u00e9culo XXI, e o fim da hist\u00f3ria parece uma distante ilus\u00e3o. Ao contr\u00e1rio das quartas-feiras normais, hoje tenho um compromisso inusitado que muda minha rotina. Acordo \u00e0s 6:00h, como de costume, sirvo o caf\u00e9 da manh\u00e3 para os filhos, despe\u00e7o-me da filha que vai \u00e0 escola de \u00f4nibus, levo o filho \u00e0 escola de carro e dirijo-me ao meu consult\u00f3rio no Para\u00edso \u2013 que belo nome para um bairro! No caminho, escuto no r\u00e1dio a not\u00edcia da morte de Stephen Hawking; puxa, que triste, que l\u00e1stima, quantos anos ele tinha mesmo? Que exemplo! O mundo est\u00e1 ficando estranho sem algumas pessoas; ou n\u00e3o, sou eu que estou envelhecendo, o tempo passa. Atendo meus pacientes pela manh\u00e3, vou buscar meu filho na escola, mas hoje, depois do almo\u00e7o, n\u00e3o volto ao consult\u00f3rio como sempre fa\u00e7o \u00e0s quartas-feiras. Hoje temos um compromisso; vamos ao hospital Albert Einsten \u2013 que coincid\u00eancia, no dia do seu anivers\u00e1rio! \u2013 onde o meu filho, que tem S\u00edndrome de Down, vai participar de um estudo cient\u00edfico sobre uma droga que melhora a mem\u00f3ria de pessoas com Alzheimer \u2013 mas o que \u00e9 mesmo a mem\u00f3ria? \u2013, e que talvez possa tamb\u00e9m ser usada para melhorar a mem\u00f3ria das pessoas com S\u00edndrome de Down \u2013 o que \u00e9 mesmo a mem\u00f3ria, depois de Freud? O caminho \u00e9 longo, a cidade de S\u00e3o Paulo \u00e9 grande, passamos em frente ao pal\u00e1cio do governo e tenho vontade de xingar o governador, mas n\u00e3o o fa\u00e7o, <em>give peace a chance<\/em>! Estamos atrasados, precisamos chegar logo ao Einstein, o hospital, pois o mundo em que vivemos \u00e9 regido pelas leis de Newton, segundo as quais tempo e espa\u00e7o n\u00e3o s\u00e3o relativos: Vm = S\/t. Chegamos. Estacionamos errado, no bloco E, mas precisamos chegar rapidamente ao bloco A. Entramos, ent\u00e3o, subitamente, em um universo paralelo, recompensados pela boa a\u00e7\u00e3o de sermos volunt\u00e1rios colaboradores para o progresso da ci\u00eancia \u2013 quanto orgulho Hawking, Einstein e Freud teriam de n\u00f3s! O calor infernal, o tr\u00e2nsito, a sensa\u00e7\u00e3o estranha de estar gazeteando numa tarde de quarta-feira, a preocupa\u00e7\u00e3o com a reposi\u00e7\u00e3o das sess\u00f5es dos pacientes desmarcados, a morte de Hawking, f\u00edsico que vencia as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es e pesquisava os buracos negros \u2013 que pena sua morte, que d\u00f3, que l\u00e1stima, ele que tanto contribuiu para o progresso da ci\u00eancia \u2013 no mesmo dia do anivers\u00e1rio de Albert Einstein \u2013 que coincid\u00eancia! \u2013, o g\u00eanio judeu, criador da teoria da relatividade, que d\u00e1 nome ao hospital; tudo isso desaparece magicamente no exato momento em que nossos p\u00e9s tocam o ch\u00e3o limp\u00edssimo, ornando com as paredes <em>off white <\/em>s\u00f3brias e ass\u00e9pticas que emolduram uma decora\u00e7\u00e3o clean, como se deve esperar de um local onde pessoas nascem, convalescem e morrem. No universo paralelo do Einstein, o hospital, as pessoas s\u00e3o educadas, vestem uniformes t\u00e3o limpos quanto o ch\u00e3o, e ostentam crach\u00e1s, nos deixando com a estranha certeza de que dever\u00edamos ter tomado banho e nos maquiado antes de sair de casa, e de que nossa marca de sab\u00e3o em p\u00f3 precisa ser substitu\u00edda, tanto quanto nosso desodorante. Meu filho, suado e descabelado como todo adolescente depois de uma manh\u00e3 na escola, destoa no contexto; mas talvez n\u00e3o seja isso, porque n\u00e3o sou adolescente, passei a manh\u00e3 atendendo no Para\u00edso, embora sim, esteja descabelada como sempre, e sentindo-me relativamente destoante. Penso que j\u00e1 sou uma senhora de 50 anos, o que me d\u00e1 certo ar de credibilidade e respeito. Lembro a mim mesma que sou uma psicanalista que atende no Para\u00edso, isso h\u00e1 de ter algum valor naquela regi\u00e3o da gal\u00e1xia. A temperatura do ar condicionado \u00e9 perfeita \u2013 como a ci\u00eancia progrediu aqui no universo paralelo! \u2013 o que certamente ajuda na assepsia daquelas pessoas educadas de crach\u00e1. Ap\u00f3s nos identificarmos como colaboradores de uma pesquisa cient\u00edfica, seguimos os labirintos \u2013 embora n\u00e3o sejamos ratos \u2013 cuidadosamente sinalizados, que nos conduzir\u00e3o, sem desvios, ao centro de pesquisa. Ali somos recebidos calorosamente pelos pesquisadores, respondemos a question\u00e1rios bizarros e quase chegamos a nos divertir, mas a verdade \u00e9 que meu filho e eu n\u00e3o conseguimos disfar\u00e7ar nossa ang\u00fastia, sem saber ainda que, hoje, o dia estava apenas come\u00e7ando, e que o buraco \u2013 branco ou negro \u2013 sempre \u00e9 mais embaixo. Sabemos, ambos, que ali \u00e9 um hospital, e nossa mem\u00f3ria freudiana burla o recalque e agora j\u00e1 nos conduziu inexoravelmente a 18 anos atr\u00e1s, num local igualmente ass\u00e9ptico e climatizado, seguindo criteriosamente a mesma est\u00e9tica de terra\u00e7o gourmet sem degusta\u00e7\u00e3o de vinho, pois naquele tempo passado, mesmo sendo o tempo relativo, n\u00f3s n\u00e3o est\u00e1vamos l\u00e1 para \u00a0pesquisar nem para degustar, mas para que meu filho \u2013 gra\u00e7as ao progresso da ci\u00eancia \u2013 fosse submetido \u00e0 cirurgia card\u00edaca gra\u00e7as \u00e0 qual est\u00e1, hoje, vivo e saud\u00e1vel, sendo volunt\u00e1rio desta pesquisa que nos trouxe a esse universo paralelo climatizado. O jovem, educado, clean, limpo, ass\u00e9ptico e elitizado m\u00e9dico que agora o examina n\u00e3o evita que a ferida aberta apare\u00e7a quando meu filho lhe mostra a cicatriz no peito. Sou igualmente educada e tento inutilmente arrumar o cabelo, lembrando que n\u00e3o estou maquiada, e sinto a ang\u00fastia aumentando, o que s\u00f3 piora quando penso que o pr\u00f3ximo exame ser\u00e1 a audiometria, o que me traz tantas outras mem\u00f3rias cansadas. N\u00e3o, ele n\u00e3o toma nenhuma medica\u00e7\u00e3o atualmente, respondo. A simp\u00e1tica e menos ass\u00e9ptica fonoaudi\u00f3loga destoa sutilmente dos habitantes do universo paralelo, talvez por aquele fio de cabelo fora do lugar, o que quase me alivia por dois segundos, enquanto ela me explica que posso ir tomar um caf\u00e9 porque o exame vai demorar. Nesse exato momento me dou conta de que havia me esquecido de trazer o material que precisava para estudar durante a espera; pois hoje meu filho n\u00e3o corre mais risco de morte, eu n\u00e3o estava, como h\u00e1 18 anos, caindo no buraco negro da antessala da UTI do hospital S\u00edrio Liban\u00eas, o universo paralelo inimigo. Por que mesmo a guerra entre \u00e1rabes e judeus? Obediente, vou ao caf\u00e9 gourmet degustar uma trufa de chocolate amargo, e mais uma vez me deparo com a cruel realidade de que preciso come\u00e7ar a me maquiar antes de sair de casa, sobretudo quando for fazer excurs\u00f5es em universos paralelos climatizados para participar de pesquisas cient\u00edficas e, mais ainda, n\u00e3o posso mais adiar uma visita ao shopping Cidade Jardim n\u00e3o t\u00e3o longe daqui. Ser\u00e1 que l\u00e1 vende o sab\u00e3o em p\u00f3 que promete o branco mais branco? Volto r\u00e1pido ao corredor confort\u00e1vel e vazio onde, invis\u00edvel, vou passar a pr\u00f3xima hora a esperar, sem nada pra fazer a n\u00e3o ser olhar para a parede assustadoramente <em>off white<\/em>, ou render-me, gra\u00e7as ao progresso da ci\u00eancia, ao <em>black mirror<\/em>. A tela negra do <em>smartfone<\/em>, assim com um buraco da mesma cor \u2013 mas o buraco negro tem cor? Hawking, que pena, n\u00e3o est\u00e1 mais aqui para responder \u2013 me leva de volta \u00e0 vida, na velocidade da luz. A primeira cena que vejo \u00e9 a de professores, na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo, sendo barbaramente espancados durante uma manifesta\u00e7\u00e3o. Vejo a cena de uma professora sangrando. O vermelho do sangue \u00e9 um choque de realidade, e um tenebroso pren\u00fancio de que o dia estava apenas come\u00e7ando, manchando o <em>white<\/em> da parede e o <em>black<\/em> do buraco. Desvio o olhar para o cartaz no corredor vazio do hospital; leio o nome de Einstein e me recordo de sua troca de correspond\u00eancia com Freud. Por que a guerra, quente ou fria? Por que a guerra? Por que a guerra? Einstein pergunta a Freud se seria<em>poss\u00edvel controlar a evolu\u00e7\u00e3o mental do homem, de modo a faz\u00ea-lo\u00a0ir contra o \u00f3dio e a destrui\u00e7\u00e3o. Estaria ele apostando na pesquisa cient\u00edfica de uma nova droga, um ant\u00eddoto eficaz? Mais modestos, estamos ajudando a ci\u00eancia a melhorar a mem\u00f3ria de pessoas com S\u00edndrome de Down \u2013 o que \u00e9 a mem\u00f3ria depois de Freud? Freud responde a Einstein que amor e \u00f3dio n\u00e3o s\u00e3o antag\u00f4nicos, e confessa n\u00e3o acreditar no mandamento crist\u00e3o amai-vos uns aos outros. A perspectiva de um fim para as guerras estaria na evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da rela\u00e7\u00e3o com a lei, ele conclui, apostando que a hist\u00f3ria \u2013 assim como a mem\u00f3ria \u2013 certamente n\u00e3o tem fim, e que a paz \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil sustentada no conflito estrutural entre os inconcili\u00e1veis interesses do sujeito e da sociedade que paradoxalmente o constitui. Quando meu filho sai da sala da audiometria, vivo e escutando muito bem, meu sangue est\u00e1 fervendo, apesar do condicionamento do ar e dos ratos no labirinto das mem\u00f3rias freudianas. Meus cabelos continuam despenteados, bem mais do que o da fonoaudi\u00f3loga, bem menos do que o da professora espancada, mas l\u00e1grimas escorrem por minha face; elas certamente teriam borrado a base, se eu tivesse me maquiado pela manh\u00e3. Sinto o gosto salgado que engulo junto ao \u00f3dio ao prefeito, \u00f3dio que eu deveria ter descontado no governador, algumas horas antes, se tempo e espa\u00e7o n\u00e3o fossem relativos. Mas E = Mc2 e Vm = S\/t. S\u00e3o 19:00h e meu filho ainda precisa colher urina e o sangue vermelho, da mesma cor daquele que escorre da testa aberta da professora. O show precisa continuar, mas agora eu j\u00e1 preciso sair o mais r\u00e1pido poss\u00edvel daquele buraco branco, produtor de uma ci\u00eancia que, ignorando Freud, reduz a mem\u00f3ria ao c\u00e9rebro, e me pergunto o que fui mesmo fazer ali no dia no nascimento de Albert Einstein, no dia na morte de Stephen Hawking, no dia em que a professora da escola da prefeitura levou porrada na cabe\u00e7a e sangrou. O dia que ainda estava apenas come\u00e7ando. O que \u00e9 a mem\u00f3ria depois de Freud? Por que a guerra? A simp\u00e1tica t\u00e9cnica de crach\u00e1 tira cinco pequenos frascos de sangue vermelho do meu filho; temos direito ao voucher para degustar um lanche gourmet com ar condicionado, mas meu suor escorre, real\u00e7ando o odor nervoso de desodorante vencido e da ang\u00fastia que agora j\u00e1 virou tristeza. Precisamos sair dali. \u00c9 urgente! Estamos presos como ratos encurralados naquela terra de ningu\u00e9m, naquele espa\u00e7o em que o tempo est\u00e1 suspenso, naquele n\u00e3o-lugar de ares e pessoas condicionados e congelantes, enquanto outras est\u00e3o sangrando o sangue quente dos ratos nas ratoeiras. Sim, \u00e9 urgente sair dali, antes que fiquemos por um tempo infinito naquele hiperespa\u00e7o; precisamos sair do labirinto, chegar ao bloco E, carimbar o papel do estacionamento, esperar nosso carro acompanhando as c\u00e2meras de seguran\u00e7a \u2013 afinal ainda estamos no universo paralelo e seguro \u2013 falar obrigada para o homem limpo de crach\u00e1 nesse n\u00e3o-universo-sem-classe-sem-ra\u00e7a-sem-cor. De nada. Agora estamos livres, voltamos ao bafo quente e \u00famido do ver\u00e3o, ao crep\u00fasculo lil\u00e1s e f\u00e9tido nas margens da megal\u00f3pole, ao tr\u00e2nsito infernal que envolve as janelas fechadas pelo medo de assalto, o medo do outro, j\u00e1 dizia o poeta: n\u00e3o existe amor em SP, mas poderia t\u00ea-lo dito o Freud. Mas o carro que nos conduzir\u00e1 de volta \u00e0 nossa casa \u2013 o lugar familiar, colorido e bagun\u00e7ado onde estaremos enfim protegidos das lembran\u00e7as cansadas, das perguntas bizarras e das cicatrizes abertas \u2013 o carro nosso de cada dia, entretanto, n\u00e3o deixa de aparentar vaga e incomodamente \u2013 apesar da sujeira, do ar desregulado e da cor cinza \u2013, o buraco branco do universo paralelo do qual acabamos de fugir. Estar\u00edamos presos para sempre no labirinto branco entre o bloco E e o bloco A, assistindo pelo espelho negro a mulheres de sangue vermelho e quente sendo espancadas por homens sem crach\u00e1? O caminho de volta \u00e0 vida \u00e9 longo e lento, pois espa\u00e7o e tempo n\u00e3o s\u00e3o relativos, e em SP, V = S\/t. O ar \u00e9 denso, a noite caiu, mas ainda temos um ao outro, meu filho e eu, e agora sabemos que ele escuta bem, e sinto que minha mem\u00f3ria est\u00e1 boa \u2013 o que \u00e9 a mem\u00f3ria depois de Freud?\u00a0 Lembro de ligar o r\u00e1dio no carro cinza: Escutamos muito bem, como atestou a audiometria, a voz vinda da frequ\u00eancia modulada; a voz falsamente natural for\u00e7ando familiaridade para dizer que o tr\u00e2nsito est\u00e1 lento na cidade de S\u00e3o Paulo, gra\u00e7as \u00e0 chuva que n\u00e3o escutamos no universo paralelo. Ent\u00e3o a voz declara, fria, seca e precisa como a porrada na testa da professora: a <\/em>vereadora\u00a0<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/politica\/politico\/marielle-franco.html\">Marielle Franco<\/a>, defensora dos direitos humanos, \u00a0acaba de ser morta a tiros dentro de um carro no bairro do Est\u00e1cio, na regi\u00e3o central do Rio. Merirelle Franco foi morta. Foi morta. No Centro do Rio. No Est\u00e1cio. Foi morta a tiros. N\u00e3o \u00e9 relativo; foi morta a tiros, no centro do Rio. Foi morta. Hoje? No dia do anivers\u00e1rio de Albert Einstein? No dia da morte de Stephen Hawking? No dia em que a pol\u00edcia do prefeito abriu a testa da professora? No dia em que interrompemos nossa rotina para contribuir para o progresso da ci\u00eancia? Ca\u00edmos em um buraco negro, um buraco negro! Hawking, nos ajude, por favor; n\u00e3o, hoje ele morreu, j\u00e1 esqueceu?! Ningu\u00e9m poder\u00e1 nos ajudar. Hoje? Agora? Mataram Marielle Franco? No Est\u00e1cio? O poeta dizia que se algu\u00e9m quer matar-me de amor que me mate no Est\u00e1cio! Foi por amor que a mataram? Meu filho quer ligar o <em>bluetooth<\/em> para ouvir sua <em>playlist<\/em> com sua m\u00fasica preferida: <em>Let it be.<\/em> Ainda se fosse <em>Help<\/em>! N\u00e3o deixo. N\u00e3o posso deixar. N\u00e3o temos mais um ao outro; estamos s\u00f3s, cansados e fracos. As l\u00e1grimas escorrem. Porque voc\u00ea est\u00e1 chorando, ele pergunta? Por que a guerra? \u2013 penso em responder, mas s\u00f3 quero que ele se cale, pois preciso escutar novamente a not\u00edcia, que penso n\u00e3o ter ouvido, ou entendido bem<em>, afinal minha audi\u00e7\u00e3o e minha mem\u00f3ria n\u00e3o foram medidas no hospital Albert Einstein e aos 50 anos, suspeito estar apresentando os primeiros sinais de Alzheimer. Mas na Alfa FM j\u00e1 estamos ouvindo hold me in your arms\/hold me in your arms o que me deixa desesperada, pois \u00e0s 21:45h de hoje, j\u00e1 sabemos que, depois de Freud, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel amarmos uns aos outros, muito menos tomar o outro em nossos bra\u00e7os, desculpa meu filho. Estou dirigindo, mas n\u00e3o consigo resistir ao espelho negro do smartfone, me confirmando em queda livre, que em breve chegarei ao meu destino, que certamente ser\u00e1 o deserto de uma unidade de terapia intensiva aonde desembarcaremos pelo lado direito do trem, como na esta\u00e7\u00e3o Para\u00edso do metr\u00f4. N\u00e3o existe amor em RJ? Mataram Marielle de amor, bem junto ao passo do passista da escola de samba no largo do Est\u00e1cio? A face do amor ao pr\u00f3ximo t\u00e3o pr\u00f3ximo e t\u00e3o outro que vira \u00f3dio, n\u00e3o \u00e9 Freud? \u00a0Mataram-na porque ela ousou perguntar por que a guerra, n\u00e3o foi Eisntein? As balas cavaram buracos em seu corpo negro, fazendo vazar o sangue vermelho e quente, igual ao da professora, igual ao que eu acabara de ver saindo do corpo do meu filho, para o progresso da ci\u00eancia, igual ao das mulheres e jovens negros e escrachados que ela fazia vis\u00edveis e aud\u00edveis, nos labirintos das comunidades n\u00e3o climatizadas, mas repletas de medo, viol\u00eancia e vida. Ali no centro daquela cidade, a mais bela, a mais triste, o ar estava denso e o calor escaldante quando a exterminaram. \u00c0s 6:00h de hoje ela estava viva. Teria se maquiado, antes de sair? Despediu-se da filha de 18 anos? Contribuiu para o progresso? Degustou caf\u00e9 com p\u00e3o? Amou daquela vez como se fosse a \u00faltima? Sentiu o gelo do ar condicionado desregulado do carro? Lembrou que era anivers\u00e1rio do Einstein? Lamentou a morte de Hawking? Estaria descabelada \u00e0s 21:30h de hoje quando foi lan\u00e7ada ao hiperespa\u00e7o pelo \u00f3dio que sustenta essa guerra? \u00c0s 22:00h Marielle j\u00e1 est\u00e1 morta, e j\u00e1 sei que, hoje, n\u00e3o adianta mais chegar em casa; apesar da exaust\u00e3o, n\u00e3o existe mais lugar seguro para desembarcar, no s\u00e9culo XXI, nem para\u00edso que nos empreste alguma dignidade. Hoje, nenhum sab\u00e3o em p\u00f3 ou l\u00edquido limpar\u00e1 a mancha do sangue que j\u00e1 foi derramado, nenhum desodorante poder\u00e1 disfar\u00e7ar seu cheiro acre e doce, nenhuma base maquiar\u00e1 a l\u00e1grima tatuada na face. A cicatriz no cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 aberta para sempre no tempo e no espa\u00e7o, como l\u00e1grimas na chuva, j\u00e1 dizia o androide de Blade Runner antes de morrer, soltando a pomba da paz. Perto da meia noite, bebo vinho sem degusta-lo, apenas para esquecer. Mas, cambaleante, lembro-me ainda de que a hist\u00f3ria n\u00e3o tem fim, felicidade sim. S\u00f3 me resta ent\u00e3o a mem\u00f3ria off white a atormentar o black out de uma longa noite insone. E a aposta em um novo amor, mais digno e menos relativo. Amanh\u00e3.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>(Publicado originalmente no livro organizado por Maria Let\u00edcia Reis Perch\u00e9 mi piaci \u2013 A vida com elas. Calligraphie Editora) <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Para Marielle Franco) Hoje, trago em meu corpo as marcas do meu&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":137,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-136","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=136"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":138,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136\/revisions\/138"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/137"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=136"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=136"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=136"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}