{"id":1662,"date":"2025-02-11T13:19:57","date_gmt":"2025-02-11T16:19:57","guid":{"rendered":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/?p=1662"},"modified":"2025-02-11T15:39:13","modified_gmt":"2025-02-11T18:39:13","slug":"estamos-aqui-dando-um-jeito-meu-amigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/2025\/02\/11\/estamos-aqui-dando-um-jeito-meu-amigo\/","title":{"rendered":"Estamos aqui dando um jeito, meu amigo!"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Ana Laura Prates<\/p>\n\n\n\n<p>Originalmente publicado em\u00a06 de janeiro de 2025, 12:00 no Jornal GGN. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"975\" src=\"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/image-1024x975.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1663\" srcset=\"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/image-1024x975.png 1024w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/image-300x286.png 300w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/image-768x732.png 768w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/image.png 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Nosso pa\u00eds nunca apurou os crimes daquele per\u00edodo da ditadura, n\u00e3o julgou, n\u00e3o puniu, n\u00e3o ensinou \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o fez hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria a primeira segunda braba do ano de 2025, mas \u00e9 dia 06 de janeiro, dia de Reis na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Para mim, um dia mais do que especial: o dia do nascimento da minha filha Luiza, e \u00e9 a ela a quem dedico esse escrito, pelo que se transmite entre gera\u00e7\u00f5es, e pelo que vale a pena lutar. Seria aquela segunda amanhecida de um domingo de dormir cedo, para come\u00e7ar a enfrentar o ano. Mas quem dormiu com um barulho desses? Um Globo de Ouro com gosto de Olimp\u00edadas e final da Copa do Mundo, porque nossa Fernandinha concorria \u2013 e ganharia \u2013 ao pr\u00eamio de melhor atriz por sua atua\u00e7\u00e3o no filme \u201cAinda estou aqui\u201d de Walter Salles Jr. Mas n\u00e3o \u00e9 futebol, \u00e9 cinema, bicho! O cinema brasileiro, t\u00e3o competente, criativo e resistente, e t\u00e3o desvalorizado, e mesmo cruelmente atacado nos anos dist\u00f3picos que atravessamos recentemente. Os obscurantistas n\u00e3o s\u00e3o tolos, eles sabem a for\u00e7a da arte contra a opress\u00e3o, o medo e o esquecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O pr\u00eamio de Fernanda Torres tem tantas, mas tantas camadas, que fica dif\u00edcil escolher por onde come\u00e7ar. Eu diria que \u00e9 a s\u00edntese do que a can\u00e7\u00e3o \u201cAos nossos filhos\u201d de Ivan Lins, eternizada pela voz de Elis Regina, nos diz: \u201cquando colherem os frutos, digam o gosto pra mim\u201d. Ontem, colhemos os frutos. Nas palavras do jovem escritor franc\u00eas Eduard Louis: escrever \u00e9 um modo de vingar nossos pais, ving\u00e1-los do sil\u00eancio, da cara amarrada, da falta de abra\u00e7o, da falta de espa\u00e7o, porque \u201cos dias eram assim\u201d. Nossa gera\u00e7\u00e3o, a gera\u00e7\u00e3o de Fernanda, a minha gera\u00e7\u00e3o, passou a inf\u00e2ncia sob a sombra da ditadura e suas consequ\u00eancias nefastas nas vidas de nossos pais e\/ou seus amigos. \u00c9 certo que grande parte da popula\u00e7\u00e3o alienada na ilus\u00e3o do \u201cmilagre brasileiro\u201d n\u00e3o sabia \u2013 ou n\u00e3o queria saber \u2013 dos horrores que estavam acontecendo no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso pa\u00eds nunca apurou os crimes daquele per\u00edodo, n\u00e3o julgou, n\u00e3o puniu, n\u00e3o ensinou \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o fez hist\u00f3ria. Com exce\u00e7\u00e3o de algumas iniciativas fundamentais como a Comiss\u00e3o da verdade e a Comiss\u00e3o de mortos e desaparecidos, as atrocidades da ditadura passaram inc\u00f3lumes. E, como sabemos, o que n\u00e3o \u00e9 elaborado e simbolizado, est\u00e1 fadado a retornar e a se repetir, como tem sido constatado na apura\u00e7\u00e3o das tentativas de golpe entre 2022 e 2023 e tamb\u00e9m nos pat\u00e9ticos pedidos recentes de anistia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na entrevista que fiz com Eug\u00eania Gonzaga e Vera Paiva no meu programa Ouvindo Vozes da TV GGN, ambas foram enf\u00e1ticas em afirmar que os crimes e atrocidades cometidos durante a ditadura seguem se repetindo no Brasil com a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, com indigenistas, com a popula\u00e7\u00e3o preta e perif\u00e9rica de nosso pa\u00eds. A ditadura terminou em alguns CEPs, e para alguns corpos, para outros n\u00e3o, e por isso segue sendo uma grande amea\u00e7a real para alguns, e virtual para todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando li o livro de Marcelo Rubens Paiva, \u201cAinda estou aqui\u201d, fiquei muito impressionada com sua sutileza e habilidade para que, mais al\u00e9m do relato e da narrativa, houvesse transmiss\u00e3o. Como psicanalista, fico sempre atenta \u00e0 quest\u00e3o do apagamento da mem\u00f3ria, seus rastros, restos e sucatas \u2013 para usar a express\u00e3o de Walter Benjamim. Por conta da minha hist\u00f3ria de vida, como filha de um homem perseguido pela ditadura que, entretanto, sobreviveu e ainda est\u00e1 aqui, com 90 anos, eu conhecia a hist\u00f3ria de Rubens Paiva, assim como a de Herzog e tantas outras e outros, desde crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o inesperado no livro, \u00e9 que Marcelo n\u00e3o fala diretamente de Rubens, mas de Eunice. Eu havia sido aluna de Vera na USP, acompanhara o trabalho de Marcelo desde a adolesc\u00eancia, mas pouco sabia da vida de Eunice, a n\u00e3o ser quando do epis\u00f3dio da conquista da certid\u00e3o de \u00f3bito do marido, que celebrei vivamente. O livro de Marcelo me tocou muito pela sutileza de escrev\u00ea-lo quando sua m\u00e3e estava perdendo a mem\u00f3ria em raz\u00e3o do Alzheimer. Trata-se, portanto, de um livro que transcende a hist\u00f3ria particular daquela fam\u00edlia, para alcan\u00e7ar um \u00edndice de sobreviv\u00eancia do que nos humaniza: a mem\u00f3ria, a escrita e sua rela\u00e7\u00e3o com a verdade poss\u00edvel, a escrita do nome na l\u00e1pide (como em Ant\u00edgona), o que se transmite entre gera\u00e7\u00f5es. \u00c9 um livro sobre resistir, insistir e seguir aqui porque, afinal, \u00e9 preciso dar um jeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed meu receio, at\u00e9 certa resist\u00eancia, eu diria, a assistir o filme. Demorei. Conhecia de cor e salteado a hist\u00f3ria, havia sido tocada pelo modo como Marcelo passou a esperan\u00e7a ativa das Marias e Clarices quem t\u00eam f\u00e9 na vida, mulheres que sempre d\u00e3o um jeito. O que mais eu poderia ver, al\u00e9m, \u00e9 claro, da alegria autossuficiente que sentimos em uma sess\u00e3o de cinema bem realizado? Fui, confesso, com medo da decep\u00e7\u00e3o, temendo e tremendo. Na verdade, agora me dou conta, o medo era outro; eu sabia que o cinema daria corpo, voz e vida \u00e0s personagens. Sabia que eram Walter Salles, Fernanda Torres e Selton Mello. No fundo, eu tinha medo da minha rea\u00e7\u00e3o e das dores que o filme ativaria em mim. N\u00e3o foi diferente. N\u00e3o foi cinema bem realizado, foi bom cinema, o melhor. Fui jogada em um tal estado de ang\u00fastia que, ao sair do cinema n\u00e3o conseguia respirar.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu j\u00e1 assisti a muitos filmes sobre v\u00e1rias ditaduras, inclusive a nossa, inclusive sobre as que seguem acontecendo nos guetos e becos do mundo, inclusive os nossos. Sempre saio comovida e agradecida do cinema. Mas \u201cAinda estou aqui\u201d me tirou o ar, talvez pelo meu momento de vida, talvez pelo momento hist\u00f3rico, talvez por ver minha gera\u00e7\u00e3o \u2013 que sempre julguei covarde \u2013 fazendo hist\u00f3ria, talvez porque h\u00e1 poucos meses havia assistido Fernanda Montenegro lendo Simone de Beauvoir no Parque do Ibirapuera, e ali tamb\u00e9m vi a emo\u00e7\u00e3o de Fernanda Torres a acompanhando. Talvez pelos meus filhos, para que possam finalmente dizer o gosto para mim, para n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Saindo do cinema, desatordoada, at\u00f4nita e sufocada, recebo a mensagem da minha filha que me salvou: m\u00e3e, venham para o sambinha! Fomos. Sim, o sambinha. Somos o pa\u00eds do samba e do futebol. Mais cedo ou mais tarde seremos novamente campe\u00f5es na Copa do Mundo. Nas Olimp\u00edadas, temos Rebeca. E temos Fernandas e cinema e literatura, e teatro e arte. Sim, n\u00f3s estamos dando um jeito, meu amigo. N\u00f3s estaremos sempre aqui.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ana Laura Prates Originalmente publicado em\u00a06 de janeiro de 2025, 12:00&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,1],"tags":[],"class_list":["post-1662","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1662","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1662"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1662\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1665,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1662\/revisions\/1665"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1662"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1662"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1662"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}