{"id":1666,"date":"2025-02-11T13:25:17","date_gmt":"2025-02-11T16:25:17","guid":{"rendered":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/?p=1666"},"modified":"2025-02-11T15:33:06","modified_gmt":"2025-02-11T18:33:06","slug":"a-ilusao-de-que-ser-homem-bastaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/2025\/02\/11\/a-ilusao-de-que-ser-homem-bastaria\/","title":{"rendered":"A ilus\u00e3o de que ser homem bastaria"},"content":{"rendered":"\n<p>Por Ana Laura Prates<\/p>\n\n\n\n<p>Originalmente publicado em\u00a024 de janeiro de 2025, 11:05 no Jornal GGN<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/image-1-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1667\" srcset=\"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/image-1-1024x683.png 1024w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/image-1-300x200.png 300w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/image-1-768x512.png 768w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/image-1.png 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>quem sabe o Super-homem venha nos restituir a gl\u00f3ria<br>mudando como um deus o curso da hist\u00f3ria<br>por causa da mulher<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0encontro com a verdade, quando temos coragem de tirar o v\u00e9u que nos protegia, \u00e9 de uma dor indescrit\u00edvel, quase insuport\u00e1vel, e um caminho sem retorno. Essa foi uma fala de Evandro Fioti se referindo ao racismo, mas que me tocou profundamente quando ouvi, pois expressa exatamente o que venho experimentando nos \u00faltimos anos quanto ao machismo. E olha que minha posi\u00e7\u00e3o nunca foi completamente alienada em rela\u00e7\u00e3o ao assunto. Al\u00e9m dos privil\u00e9gios de classe e da branquitude (sim, sou fruto da pol\u00edtica de branqueamento que esteve em vigor em nosso pa\u00eds \u2013 mas esse \u00e9 assunto para outro texto), fui criada por uma m\u00e3e desquitada, independente, leitora de Beauvoir que, entretanto, reproduziu em v\u00e1rios aspectos da minha educa\u00e7\u00e3o valores conservadores, supostamente para me proteger. Essa biografia, entretanto, bem como rela\u00e7\u00f5es com homens aparentemente pouco convencionais, me faziam crer \u2013 de modo ing\u00eanuo e soberbo \u2013 que eu estaria a salvo. Sim, eu tamb\u00e9m era uma mulher cooptada pelo machismo e vivia a ilus\u00e3o de que ser homem bastaria. Ser\u00e1 poss\u00edvel deixar de s\u00ea-lo? N\u00e3o sei. Mas, hoje, pelo menos, o v\u00e9u caiu e por mais dif\u00edcil que seja, concordo com Fioti: quando encontramos uma verdade, \u00e9 melhor encar\u00e1-la de frente.<\/p>\n\n\n\n<p>As coisas come\u00e7aram a mudar quando minha filha se tornou adolescente e eu, para proteg\u00ea-la (lembra da minha m\u00e3e?) entrei no famoso dilema no shortinho\u2026 Brincadeiras \u00e0 parte, Luiza me trazia as quest\u00f5es que vinha discutindo no coletivo feminista no Col\u00e9gio Equipe \u2013 uma escola pouco convencional da Zona Oeste de S\u00e3o Paulo \u2013, e elas me desconcertavam. Esses debates e at\u00e9 embates foram cruciais, inclusive, para uma mudan\u00e7a radical na rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filha, da qual muito me orgulho. Deixo aqui meu agradecimento p\u00fablico aos ensinamentos da ent\u00e3o menina de 14 anos, que com certeza mudaram o rumo da minha vida. Eu tinha que reconhecer: mesmo sendo tamb\u00e9m eu uma mulher independente, informada, estudiosa da feminilidade, e ainda por cima analisada, o machismo me atravessava de forma atroz em todas as esferas da minha vida, e eu n\u00e3o enxergava, ou n\u00e3o queria enxergar. Porque d\u00f3i. E exige posi\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es que cobram um pre\u00e7o muito alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das partes mais dif\u00edceis desse processo \u2013 e isso \u00e9 tamb\u00e9m uma constata\u00e7\u00e3o cl\u00ednica \u2013 \u00e9 poder se reconhecer como v\u00edtima, coisa bem diferente de se vitimizar. Embora o machismo seja estrutural, ele se materializa concretamente em sujeitos encarnados, em corpos que amamos e em homens com quem nos relacionamos: nossos colegas, amigos, parentes, companheiros e amantes. Essa concentra\u00e7\u00e3o de amor, amizade, desejo, m\u00e1goa, medo e desconfian\u00e7a, em um mesmo objeto \u00e9 uma das consequ\u00eancias mais nefastas do machismo na subjetividade de mulheres heterossexuais. Quantas vezes as mulheres n\u00e3o tentam \u201csalvar\u201d para elas mesmas seus \u201cabusadores involunt\u00e1rios\u201d de estima\u00e7\u00e3o, apoiadas em um narcisismo que as impede de reconhecer que vinham sendo (\u00e0s vezes por anos) manipuladas, enganadas, desrespeitadas etc.? E quantas mulheres se submetem a essas situa\u00e7\u00f5es para n\u00e3o renunciarem a seus casamentos \u201cest\u00e1veis\u201d e \u201cconfort\u00e1veis\u201d ou a seus cargos, empregos e status?<\/p>\n\n\n\n<p>O assunto \u00e9 urgente, e tem retornado e insistido, seja em meu consult\u00f3rio ou na minha vida privada e p\u00fablica. Mesmo mulheres privilegiadas, de classe m\u00e9dia, progressistas, feministas e que em geral se relacionam com homens escolarizados, ditos de esquerda, com amplo acesso \u00e0 cultura e informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o imunes ao machismo, \u00e0 misoginia e suas manifesta\u00e7\u00f5es, principalmente, a viol\u00eancia trivializada e at\u00e9 normalizada por muitos: a&nbsp;<em>brotheragem<\/em>&nbsp;e seus dispositivos j\u00e1 mencionados: as conversas de bar sobre mulheres, quase sempre quando j\u00e1 est\u00e3o embriagados (o que, em geral, \u00e9 usado como \u00e1libi), os grupos de whatsapp, os vesti\u00e1rios etc. Evidentemente o problema n\u00e3o est\u00e1 nos lugares ou meios em si mesmos, mas na finalidade desviada de trocas que poderiam sim servir para comunica\u00e7\u00e3o, solidariedade, apoio, acolhimento ou pura distra\u00e7\u00e3o e divers\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, n\u00e3o apenas a escolaridade, ou posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas tampouco a profiss\u00e3o dos homens&nbsp; garante outro posicionamento: s\u00e3o m\u00e9dicos, engenheiros, t\u00e9cnicos, artistas, escritores, arquitetos, empres\u00e1rios, estudantes, publicit\u00e1rios, professores, advogados, psicanalistas\u2026 E h\u00e1, tamb\u00e9m, a tenebrosa constata\u00e7\u00e3o da coopta\u00e7\u00e3o de algumas mulheres, presas e manipuladas pelo discurso hegem\u00f4nico, que assim como os \u201cpobres de direita\u201d, se tornam reprodutoras de pr\u00e1ticas, falas e atos machistas para serem aceitas e bem quistas por homens, seja no amor, no trabalho, na imagem ou nas rela\u00e7\u00f5es de poder. Soube, por exemplo, de mulheres que difamaram uma colega de trabalho em pleno 2024, por supostamente se relacionar com um homem mais jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>Em maio de 2024, entrevistei em meu programa Ouvindo Vozes a professora da UNB e pesquisadora Valeska Zanello, que tem se dedicado \u00e0 articula\u00e7\u00e3o entre sa\u00fade mental e g\u00eanero. Chamamos o epis\u00f3dio de \u201cA crise da masculinidade\u201d e, nele, Valeska falou sobre sua pesquisa com grupos masculinos de whatsapp. Vale a pena escutar o epis\u00f3dio no Spotify ou no&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=DDI_xONgNr8&amp;t=11s\">Youtube da TVGGN<\/a>, mas adianto aqui a \u00eanfase no pacto que protege os homens e se transforma em um dos mais eficazes dispositivos de perpetua\u00e7\u00e3o das micro viol\u00eancias cotidianas que confirmam os dois \u00fanicos lugares aceitos para as mulheres no Patriarcado capitalista: m\u00e3e ou objeto sexual \u2013 nunca um sujeito com desejos, aspira\u00e7\u00f5es ou fantasias pr\u00f3prias. O que foi chamado por Marilyn Frye de la\u00e7o homoafetivo seria muito bem-vindo, como o \u00e9, ali\u00e1s, qualquer outro la\u00e7o verdadeiro de amor ou amizade. Usar esse termo para definir a argamassa da \u201cbrotheragem\u201d, entretanto, me parece injusto com homens que realmente amam outros homens. Pois, especificamente entre homens heterossexuais, caberia interrogar se o que sustenta essas rela\u00e7\u00f5es \u00e9 realmente o afeto amoroso e a solidariedade \u2013 que podem eventualmente estarem presentes \u2013, ou se s\u00e3o muito mais rela\u00e7\u00f5es de submiss\u00e3o, dom\u00ednio, poder e controle m\u00fatuo, que afetam diretamente as mulheres, mas tamb\u00e9m os homens que, ainda hoje, t\u00eam dificuldade em quebrar esse pacto de supostos \u201cirm\u00e3os\u201d.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em novembro de 2024, tamb\u00e9m no Ouvindo Vozes, entrevistei a psicanalista, soci\u00f3loga e documentarista&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=hnqoM6ijSCI&amp;list=PLZUPpD2EGpfrBrOt_arbwT6Wx_FexGilH\">Ingrid Gerolimich<\/a>, que falou longamente sobre esse modo peculiar de uni\u00e3o masculina, que faz com que querer agradar, n\u00e3o contrariar e n\u00e3o decepcionar outros homens seja mais importante do que manter a coer\u00eancia com princ\u00edpios \u00e9ticos e pol\u00edticos e mesmo a lealdade, amizade e amor pelas mulheres com quem eles se relacionam. Enquanto isso, as mulheres s\u00e3o ensinadas a competirem entre si para agradarem os homens e serem escolhidas na \u201cprateleira do amor\u201d (a express\u00e3o \u00e9 de Zanello). Da\u00ed, inclusive, a \u00eanfase que Ingrid atribui \u00e0 amizade entre mulheres como uma contra tecnologia de g\u00eanero. Valeska aposta tamb\u00e9m no letramento de g\u00eanero para homens, sobretudo os mais jovens, e \u00e9 com muita esperan\u00e7a na possibilidade de mudan\u00e7a que me somo a essas e tantas mulheres \u2013 e alguns homens, felizmente \u2013 que v\u00eam tentando mudar esse estado lament\u00e1vel das coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses dias t\u00eam sido particularmente dif\u00edceis para quem decidiu olhar de frente para essas quest\u00f5es: passei o final de semana \u00e0s voltas com tristeza, nojo, raiva e indigna\u00e7\u00e3o e tendo que lidar bem de perto com o mal-estar provocado pelos efeitos nocivos e desgastantes da&nbsp;<em>brotheragem&nbsp;<\/em>doentia. Por uma enorme coincid\u00eancia \u2013 ou talvez porque epis\u00f3dios como esse sejam mais comuns do que gostar\u00edamos de acreditar, ou talvez porque finalmente o assusto esteja sendo tratado com a devida import\u00e2ncia \u2013, recebo na segunda-feira, de minha filha, o link para escutar o epis\u00f3dio \u201cA anatomia de uma mentira\u201d, por Vanessa Barbara, do Podcast \u201cCPF na nota?\u201d da Radio Novelo. Vanessa revela uma lista de transmiss\u00e3o de e-mails \u2013 da qual participavam jornalistas, editores e escritores, incluindo seu ent\u00e3o marido \u2013, descoberta durante sua separa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 14 anos. Nessa lista, esses homens progressistas e atualmente renomados expunham seus casos, companheiras, esposas e amantes de modo mis\u00f3gino e machista. O caso vem repercutindo no meio liter\u00e1rio e nas redes sociais durante toda a semana, se desdobrando em debates que j\u00e1 deveriam estar na mesa h\u00e1 muito tempo. Alguns dos homens identificados e envolvidos j\u00e1 vieram a p\u00fablico atestar a veracidade das declara\u00e7\u00f5es de Vanessa e se desculparam.<\/p>\n\n\n\n<p>Elaborando os acontecimentos do fim de semana, e escutando a dor de Vanessa da segunda, voltei ao epis\u00f3dio 4, \u201cAmigo secreto\u201d, do Podcast de Fernanda Lima, Zen Vergonha, o qual recomendo fortemente. Neste epis\u00f3dio v\u00e1rios homens relatam seus testemunhos a respeito de como se sentem em rela\u00e7\u00e3o a esses grupos de \u201cbrothers\u201d e como conseguiram se posicionar de modo a romperem com o ciclo de misoginia, viol\u00eancia, submiss\u00e3o e aprisionamento a algo que n\u00e3o mais os representa e com o que n\u00e3o se identificam. S\u00e3o homens nossos aliados, que t\u00eam percebido o quanto essa mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres e a eles pr\u00f3prios \u00e9 boa para todos n\u00f3s, e para a sociedade mais justa e menos desigual que desejamos construir. Minha mensagem no Instagram, no final de 2024, foi especialmente dedicada a alguns homens que tiveram um papel crucial na minha vida durante o ano e refor\u00e7o aqui meu agradecimento a cada um. Homens, homens verdadeiramente amigos, companheiros, parceiros, que com respeito e afeto demonstram diariamente que vale a pena \u2013 como diria Gil \u2013 mudar o curso da hist\u00f3ria por causa da mulher!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ana Laura Prates Originalmente publicado em\u00a024 de janeiro de 2025, 11:05&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,1],"tags":[],"class_list":["post-1666","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1666"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1666\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1668,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1666\/revisions\/1668"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}