{"id":274,"date":"2022-02-25T11:56:53","date_gmt":"2022-02-25T14:56:53","guid":{"rendered":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/?p=274"},"modified":"2022-02-25T11:58:27","modified_gmt":"2022-02-25T14:58:27","slug":"maes-paralelas-que-se-encontram-no-infinito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/2022\/02\/25\/maes-paralelas-que-se-encontram-no-infinito\/","title":{"rendered":"M\u00e3es: paralelas que se encontram no infinito"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Por: Ana Laura Prates<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><br>Texto originalmente publicado em&nbsp;23 de fevereiro de 2022, 11:08 no site do Jornal GGN : <a href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/editoria\/cultura\/maes-paralelas-que-se-encontram-no-infinito-por-ana-laura-prates\/\">https:\/\/jornalggn.com.br\/editoria\/cultura\/maes-paralelas-que-se-encontram-no-infinito-por-ana-laura-prates\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"577\" src=\"http:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/2a743a60-453a-40a6-ab25-33ebe8c788d2-1024x577.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-275\" srcset=\"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/2a743a60-453a-40a6-ab25-33ebe8c788d2-1024x577.jpg 1024w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/2a743a60-453a-40a6-ab25-33ebe8c788d2-300x169.jpg 300w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/2a743a60-453a-40a6-ab25-33ebe8c788d2-768x432.jpg 768w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/2a743a60-453a-40a6-ab25-33ebe8c788d2-1536x865.jpg 1536w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/2a743a60-453a-40a6-ab25-33ebe8c788d2-1280x720.jpg 1280w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/2a743a60-453a-40a6-ab25-33ebe8c788d2.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>M\u00e3es: paralelas que se encontram no infinito<\/strong><br><strong>Por: Ana Laura Prates<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aviso aos leitores que ainda n\u00e3o assistiram ao filme M\u00e3es paralelas (Madres paralelas) de Pedro Almod\u00f3var que este texto inclui passagens do filme, inclusive com refer\u00eancia ao seu final.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cH\u00e1 verdades que s\u00f3 podem ser reveladas<\/em> <em>se forem descobertas<\/em>\u201d<br>(<em>Inc\u00eandios, Wajdi Mouawad)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O filme M\u00e3es paralelas de Pedro Almod\u00f3var transmite, em uma tem\u00e1tica contempor\u00e2nea, a estrutura do tr\u00e1gico, em sua tripla fun\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica: est\u00e9tica, cat\u00e1rtica e educativa. Mas \u00e9, acima de tudo, um filme sobre a dimens\u00e3o da verdade. N\u00e3o \u201cA\u201d verdade com letra mai\u00fascula buscada pela tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e pela religi\u00e3o, mas aquela com a qual n\u00f3s psicanalistas nos deparamos a partir da escuta do inconsciente: a verdade que n\u00e3o pode ser de todo dita, pois que sua estrutura mesma inclui o que as palavras n\u00e3o alcan\u00e7am. Que a verdade seja da ordem de um meio dizer, entretanto, n\u00e3o autoriza de modo algum a sustenta\u00e7\u00e3o da mentira ou o relativismo c\u00ednico da p\u00f3s-verdade.<br><\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3es paralelas coloca novamente em cena a quest\u00e3o fundamental da pe\u00e7a Ant\u00edgona, de S\u00f3focles: o direito \u00e0 lapide e \u00e0 mem\u00f3ria contra a vontade do tirano. A leitura original que Lacan realiza de Ant\u00edgona aponta para o crime de desumaniza\u00e7\u00e3o praticado por Creonte ao impedir o sepultamento de Polinices. Assim, \u00e9 contra o apagamento do nome e da mem\u00f3ria que ela se insurge. N\u00e3o por acaso, no final do filme podemos ler um trecho da seguinte cita\u00e7\u00e3o de Eduardo Galeano: \u201cn\u00e3o h\u00e1 hist\u00f3ria muda. Por mais que a queimem, por mais que a quebrem, por mais que a desmintam, a hist\u00f3ria humana se nega a calar a boca. O tempo que foi segue batendo, vivo dentro do tempo que \u00e9, mesmo que o tempo que \u00e9 n\u00e3o o queira ou n\u00e3o o saiba. O direito de recordar n\u00e3o figura entre os direitos humanos consagrados pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, mas hoje \u00e9 mais do que nunca necess\u00e1rio reivindic\u00e1-lo e coloc\u00e1-lo em pr\u00e1tica: n\u00e3o para repetir o passado, mas para evitar que se repita (\u2026). Recordar o passado, para liberarmos de suas maldi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o para atar os p\u00e9s do tempo presente, mas para que o presente caminhe livre de armadilhas\u201d. Trata-se de uma passagem extremamente complexa, pois Galeano aponta para a l\u00f3gica descoberta por Freud: o que n\u00e3o se recorda e n\u00e3o se elabora est\u00e1 fadado a se repetir. Mas, tal como um desdobramento da quest\u00e3o subjetiva, Galeano aponta para a dimens\u00e3o pol\u00edtica presente na mem\u00f3ria.<br><\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 exatamente nesse ponto nodal entre o que h\u00e1 de mais \u00edntimo e o pol\u00edtico \u2013 os interesses da cidade, ou seja, a l\u00f3gica do coletivo \u2013 que Almod\u00f3var situa sua Ant\u00edgona, Janis \u2013 personagem principal magistralmente interpretada por Pen\u00e9lope Cruz \u2013 assim nomeada por sua m\u00e3e hippie em homenagem a Janis Joplin (ali\u00e1s, a trilha sonora do filme \u00e9 um cap\u00edtulo \u00e0 parte). A intimidade, e o que fazemos com ela, queiramos ou n\u00e3o, saibamos ou n\u00e3o, \u00e9 pol\u00edtica! A m\u00e3e de Janis teve uma overdose quando ela tinha apenas 5 anos, e nossa Ant\u00edgona espanhola foi criada pela av\u00f3 em um povoado no qual, todos sabiam, havia uma vala comum na qual estavam os corpos de seu bisav\u00f4 e de outras pessoas torturadas e assassinadas pelo Estado durante a guerra civil espanhola. A outra protagonista \u00e9 Ana (Milena Smit), adolescente filha de uma fam\u00edlia da elite, que deveria ter sido tradicional, n\u00e3o fosse o fato de que sua m\u00e3e escolheu a carreira de atriz, deixando a filha com o pai.<br><\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria dessas maternidades paralelas, de mulheres que, cada uma a seu modo, n\u00e3o aceitou o destino inexor\u00e1vel de uma realiza\u00e7\u00e3o absoluta enquanto m\u00e3es, encontram-se agora por obra do acaso em uma maternidade onde suas filhas est\u00e3o parindo. Ambas est\u00e3o gr\u00e1vidas e solteiras. Janis escolhe levar uma gravidez n\u00e3o planejada, por\u00e9m desejada, mesmo que para isso tenha rompido o romance com o pai do beb\u00ea. Ana, saberemos depois, engravidou enquanto v\u00edtima de um estupro coletivo n\u00e3o denunciado por sua fam\u00edlia. Elas, que bem poderiam ser m\u00e3e e filha pela diferen\u00e7a de idade, selam seu destino ao se tornarem m\u00e3es no mesmo dia e local. O artif\u00edcio cl\u00e1ssico utilizado pelo mago Almod\u00f3var \u2013 trocar as crian\u00e7as na maternidade e matar uma delas \u2013 \u00e9 apenas um recurso mais uma vez emprestado do tr\u00e1gico, ali\u00e1s recorrente em sua obra como por exemplo em \u201cTudo sobre minha m\u00e3e\u201d. Ele sempre o utiliza, entretanto, para apontar outra coisa, menos expl\u00edcita e vis\u00edvel. No cinema de Almod\u00f3var, o importante se passa, assim como nos sonhos, na Outra cena. Neste caso, questionar a pr\u00f3pria maternidade natural, elevando-a a guardi\u00e3 da transmiss\u00e3o simb\u00f3lica. Se o pai \u00e9 o representante da lei simb\u00f3lica, s\u00e3o as m\u00e3es que a veiculam atrav\u00e9s de sua pr\u00f3pria divis\u00e3o. N\u00e3o por acaso o pai da filha de Janis, Arturo (Israel Elejalde) \u00e9 antrop\u00f3logo forense e enquanto o drama subjetivo das duas mulheres est\u00e1 transcorrendo, sabemos que, no pano de fundo, ele est\u00e1 abrindo uma investiga\u00e7\u00e3o para autorizar a abertura da vala comum do povoado, a partir dos testemunhos de suas moradoras. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 por acaso que, embora ofendida, Janis escute a observa\u00e7\u00e3o de Arturo de que sua filha n\u00e3o tinha semelhan\u00e7a biol\u00f3gica com o casal parental, a n\u00e3o ser por um poss\u00edvel e desconhecido av\u00f4 venezuelano.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Janis, contudo, n\u00e3o \u00e9 tomada pela paix\u00e3o da ignor\u00e2ncia. Antes, ela quer saber a verdade que, uma vez revelada, entretanto, a faz hesitar. \u00c9 bel\u00edssimo o curto tempo do filme durante o qual ela tenta sustentar a mentira, sumindo do mapa e produzindo em si pr\u00f3pria uma ang\u00fastia insuport\u00e1vel. Saber da morte s\u00fabita da filha biol\u00f3gica, criada at\u00e9 ent\u00e3o por Ana como sua, produz o efeito de aproxima\u00e7\u00e3o improv\u00e1vel e radical entre as duas m\u00e3es. Janis precisa desesperadamente que Ana saia da aliena\u00e7\u00e3o produzida por sua fam\u00edlia \u201cneutra\u201d politicamente, demonstrando magistralmente a coniv\u00eancia da neutralidade com a tirania. Janis precisa que Ana saiba a verdade sobre seu pa\u00eds, seus desaparecidos, mas tamb\u00e9m a verdade crua do DNA \u2013 que como sabemos, n\u00e3o \u00e9 suficiente para produzir uma filia\u00e7\u00e3o. E Ana aceita a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica paralelamente \u00e0s aulas de culin\u00e1ria e cultura musical \u2013 apontando a responsabilidade que temos com as novas gera\u00e7\u00f5es!<br><\/p>\n\n\n\n<p>Que essa voz que age pelo direito fundamental aos rituais f\u00fanebres, assim como Ant\u00edgona, seja a de uma mulher n\u00e3o \u00e9 um mero detalhe. Que a hist\u00f3ria do povoado seja guardada por mulheres, tampouco. O mago Almod\u00f3var prova que o feminismo s\u00f3 se sustenta na pol\u00edtica e que \u00e9 incontorn\u00e1vel que a pol\u00edtica seja feminista, como aparece na camiseta de Janis, enquanto ensina Ana a fazer tortillas. Mas a mem\u00f3ria inclui os homens que morreram por justi\u00e7a ou que ainda lutam por ela, por meio da ci\u00eancia (Arturo) ou da arte (Almod\u00f3var). Os \u00faltimos 20 minutos do filme se passam no tempo das escava\u00e7\u00f5es e da descoberta das ossadas. Como n\u00e3o lembrar aqui do trabalho extraordin\u00e1rio de Eug\u00eania Gonzaga \u2013 nossa Ant\u00edgona brasileira! \u2013 com o cemit\u00e9rio clandestino de Perus em S\u00e3o Paulo, e o fato de que uma das primeiras provid\u00eancias do atual presidente do Brasil foi exoner\u00e1-la, dizendo que \u201cquem gosta de osso \u00e9 cachorro\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00f3s, que n\u00e3o reduzimos o cad\u00e1ver a carni\u00e7a somos convocados pelo mago do olhar quando finalmente ocorre o ritual f\u00fanebre e o povoado pode despedir-se de seus mortos e honrar sua mem\u00f3ria. Almod\u00f3var nos inclui na cena e choramos juntos pelos nossos desaparecidos. Somos parte do povoado! Cec\u00edlia, a menina, tem duas m\u00e3es e o filho ou filha de Arturo que Janis agora traz no ventre \u00e9 nomeado por Ana de \u201cseu irm\u00e3ozinho\u201d. Se for homem, ter\u00e1 o nome do bisav\u00f4 de Janis; se for mulher, se chamar\u00e1 Ana. Assim como em Inc\u00eandios de Wajdi Mouawad, e assim como descobrimos no div\u00e3, uma filia\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode se concluir atrav\u00e9s de um desejo que n\u00e3o seja an\u00f4nimo. \u00c9 preciso, portanto, inscrever o nome na l\u00e1pide e fazer a hist\u00f3ria das sucessivas gera\u00e7\u00f5es que chamamos humanidade. S\u00f3 assim uma hist\u00f3ria de estupro, o trauma original que nos constitui, pode virar uma hist\u00f3ria de amor. Cec\u00edlia tem duas m\u00e3es, mas, mais importante do que isso, Cec\u00edlia tem um povoado, \u00e9 filha de um povo. \u00c9 bel\u00edssima a cena em que a pequena menina olha as caveiras e, nelas, v\u00ea corpos, projetando a imagem da vida que outrora pulsava. Nossos mortos vivem, ainda, enquanto forem falados, lembrados e imaginados, e s\u00e3o essas vidas paralelas que se encontram no infinito que chamamos de eternidade. Da\u00ed a utopia de Maiakowski em seu poema \u201cO amor\u201d: \u201cPara que doravante a fam\u00edlia seja o pai; pelo menos o Universo, a m\u00e3e, pelo menos a Terra\u201d (trad. Augusto de Campos e Boria Schnaiderman)<br><\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cM\u00e3es paralelas\u201d, Almod\u00f3var ultrapassa a for\u00e7a de sua artimanha est\u00e9tica, nos deixando de heran\u00e7a seu filme mais \u00e9tico!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ana Laura Prates \u2013 Possui gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia pela Universidade de S\u00e3o Paulo (1989), mestrado em Psicologia Cl\u00ednica pela Universidade de S\u00e3o Paulo (1996), doutorado em Psicologia Cl\u00ednica pela Universidade de S\u00e3o Paulo (2006) e P\u00f3s-doutorado em Psican\u00e1lise pela UERJ (2012).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Ana Laura Prates Texto originalmente publicado em&nbsp;23 de fevereiro de 2022,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,1],"tags":[],"class_list":["post-274","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/274","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=274"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/274\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":277,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/274\/revisions\/277"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=274"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=274"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=274"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}