{"id":290,"date":"2022-02-28T14:41:57","date_gmt":"2022-02-28T17:41:57","guid":{"rendered":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/?p=290"},"modified":"2022-02-28T15:23:08","modified_gmt":"2022-02-28T18:23:08","slug":"deixa-a-menina-sambar-em-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/2022\/02\/28\/deixa-a-menina-sambar-em-paz\/","title":{"rendered":"Deixa a menina sambar em paz!"},"content":{"rendered":"\n<p>Por: Ana Laura Prates<\/p>\n\n\n\n<p>Texto publicado originalmente pela Editora Aller em 22\/01\/2018: https:\/\/www.allereditora.com.br\/deixa-a-menina-sambar-em-paz\/<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" data-id=\"293\" src=\"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/WhatsApp-Image-2022-02-28-at-15.01.47-1024x682.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-293\" srcset=\"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/WhatsApp-Image-2022-02-28-at-15.01.47-1024x682.jpeg 1024w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/WhatsApp-Image-2022-02-28-at-15.01.47-300x200.jpeg 300w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/WhatsApp-Image-2022-02-28-at-15.01.47-768x511.jpeg 768w, https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/WhatsApp-Image-2022-02-28-at-15.01.47.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p><em>Um dia vivi a ilus\u00e3o de que ser homem bastaria, que o mundo masculino tudo me daria, do que eu quisesse ter. Que nada, minha por\u00e7\u00e3o mulher que at\u00e9 ent\u00e3o se resguardara, \u00e9 a por\u00e7\u00e3o melhor que trago em mim agora, \u00e9 o que me faz viver<\/em>&nbsp;<em>(Gilberto Gil)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Escrevo este texto ainda sob o impacto do ensaio da escola de samba do qual participei ontem \u00e0 noite. Em meio a tantas contradi\u00e7\u00f5es envolvendo o que atualmente s\u00e3o as escolas de samba, n\u00e3o tem jeito: quando a bateria come\u00e7a a esquentar os tamborins, sou atravessada por uma esp\u00e9cie de transe que me leva a outro espa\u00e7o\/tempo. E, ent\u00e3o, aparecem as mulheres do samba: a passista, a porta bandeira, a menina da ala das crian\u00e7as, a baiana, a senhora da velha guarda, as ritmistas e a rainha da bateria. Nessa hora, os pensamentos e sentimentos contradit\u00f3rios atingem um grau mais elevado e se al\u00e7am \u00e0 dignidade do paradoxo. Fiquei observando aquelas mulheres enquanto as fotografava, tentando capturar algo daquela dignidade que me atinge com for\u00e7a, apesar de me ser estrangeria e quase inalcan\u00e7\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Descendentes de escravas, miscigenadas, mulatas, mamelucas e meio malucas: a hist\u00f3ria das mulheres do Brasil desfilando num transe fren\u00e9tico diante de meus olhos marejados e meu cora\u00e7\u00e3o disparado. Imposs\u00edvel n\u00e3o me lembrar do argumento acad\u00eamico de um colega a quem admiro e respeito, declinando em tom cr\u00edtico e com perfeita l\u00f3gica aristot\u00e9lica os problemas \u00e9ticos do que se tornou o carnaval no Brasil: escolas de samba tendo que decidir entre o patroc\u00ednio do crime ou das empresas (se \u00e9 que h\u00e1 alguma diferen\u00e7a entre ambos), lavagem de dinheiro, promiscuidade entre p\u00fablico e privado e as mulheres reduzidas a objeto de consumo para gringo. Assim como em rela\u00e7\u00e3o ao futebol, melhor tomar dist\u00e2ncia, manter a coer\u00eancia, n\u00e3o nos misturarmos com esse tipo de coisa e dormirmos em paz com nossa consci\u00eancia de intelectuais marxistas. Ah! Como meu lado homem concorda com esses argumentos e me atormenta com pensamentos autocr\u00edticos, enquanto simultaneamente penso tamb\u00e9m com meus p\u00e9s, que se movem intuitivamente ao ritmo do samba enredo e meu quadril balan\u00e7a movido pelo sangue negro que corre em minhas veias; e dou gracias a la vida por ser brasileira e estar \u201cvivendo esse momento lindo\u201d! E num \u00e1timo de segundo, sou afetada por um saber que de acad\u00eamico n\u00e3o tem nada; e sinto na pele o enodamento da vida, do corpo e da linguagem, e experimento visceralmente uma satisfa\u00e7\u00e3o que \u2013 como n\u00e3o reconhecer \u2013 tem um \u201cqu\u00ea\u201d de sexual, mas n\u00e3o \u00e9 de todo sexual, porque pulsa por cada poro, transpirando beleza e coragem, e vibra cada pelo e inspira uma esp\u00e9cie de sublima\u00e7\u00e3o transcendental.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei pensando na vida de cada uma daquelas mulheres do samba e, enquanto as admirava, invejava e cobi\u00e7ava, era inevit\u00e1vel afastar de todo a vozinha do grilo falante soprando em meus ouvidos aquele mantra da mulher objeto de consumo. Enquanto sambava tentando pretensiosamente imitar uma passista, me lembrava do meu sogro, na d\u00e9cada de noventa: um homem verdadeiramente cat\u00f3lico e muito \u00e9tico. Durante o carnaval era quando se travavam nossos mais interessantes duelos f\u00e1licos, mentais, argumentativos e l\u00f3gicos. N\u00e3o sem amor. N\u00f3s nos am\u00e1vamos. O crist\u00e3o verdadeiro e reto versus a aspirante a psicanalista e pseudo feminista que, acreditem, concordavam muito mais do que se poderia supor. Conservador que era, apresentava argumentos dialeticamente feministas para se posicionar contra as escolas de samba: as mulheres nuas, sendo expostas daquele jeito na televis\u00e3o, um festival de peitos e bundas reduzidos a objeto de consumo para gringo. N\u00e3o sou eu que repito a frase. \u00c9 que a frase do meu sogro cat\u00f3lico e do meu amigo acad\u00eamico de esquerda \u00e9 exatamente a mesma! Nos anos noventa, meu lado homem crist\u00e3o universalista e dialeticamente moralista j\u00e1 concordava com meu sogro, mas mesmo assim eu passava a madrugada assistindo ao desfile e, \u00e9 claro, torcendo pra Mangueira \u2013 que, \u00e0 \u00e9poca, proibiu a \u201cgenit\u00e1lia desnuda\u201d durante o desfile. E meu lado homem marxista universalista continua concordando com meu amigo acad\u00eamico bem resolvido com sua culpa ateia. Mas\u2026 \u00e7a n\u2019imp\u00eache pas d\u2019exister.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos ent\u00e3o falar sobre a dignidade do paradoxo? Ser\u00e1, realmente, que a \u00fanica sa\u00edda para as mulheres n\u00e3o serem tratadas como objeto de consumo local ou estrangeiro \u2013 o que, por favor, n\u00e3o \u00e9 o mesmo que objeto de interesse sexual, ou tes\u00e3o, se preferirem \u2013 \u00e9 esconderem seus corpos e s\u00f3 os movimentarem de modo considerado decente? Ora, esse racioc\u00ednio apol\u00edneo e aristot\u00e9lico, se levado ao extremo, chegar\u00e1 \u00e0 burca que, no fundo, nada mais \u00e9 do que uma esp\u00e9cie de hip\u00e9rbole do respeito \u00e0 mulher; um modo cultural de afirmar que mulher n\u00e3o \u00e9 \u201cs\u00f3\u201d corpo. Ora, ora, ora\u2026 eis a contradi\u00e7\u00e3o, nossa velha companheira de ins\u00f4nia aparecendo de novo quando menos esperamos, atravessando o ritmo do samba e nos fazendo perder o rebolado. Mas, afinal, por que \u00e9 mesmo que as mulheres n\u00e3o podem mostrar os corpos que t\u00eam? Por que precisam se restringir ao logos para serem respeitadas, amadas e mais, ainda, terem sua escolha levada em conta na hora da verdade do encontro entre corpos sexuados, seja l\u00e1 o modo como gozem? Por que n\u00e3o podem, elas mesmas, sentirem tes\u00e3o com seus corpos? Porque n\u00e3o podem querer despertar o tes\u00e3o do outro ou da outra? E por que sentir tes\u00e3o ou querer despertar o tes\u00e3o \u00e9 interpretado \u2013 de modo assustadoramente comum \u2013 como a senha para o estupro? Haja Freud para ajudar a sustentar a pergunta \u2013 com o perd\u00e3o do vocabul\u00e1rio chulo, entretanto extremamente preciso neste caso: \u201co que o cu tem a ver com as cal\u00e7as?\u201d. Ah\u2026 o semblante! Quanto ainda nos falta para alcan\u00e7ar sua \u201cn\u00e3o rela\u00e7\u00e3o\u201d com o real. Quanto \u00e0 realidade, essa, \u00e9 sempre uma montagem mais ou menos burlesca e falaciosa para escamotear o abismo que nos une e separa na maldi\u00e7\u00e3o divina dos sexos.<\/p>\n\n\n\n<p>E pra n\u00e3o dizer que n\u00e3o falei de Lacan, \u00e9 urgente lembrarmos que uma de suas mais importantes interven\u00e7\u00f5es na psican\u00e1lise foi justamente e ideia de que n\u00e3o se pode reduzir o corpo, enquanto espa\u00e7o de gozo, ao objeto \u2013 isso, ali\u00e1s, \u00e9 o que fez a ci\u00eancia moderna. Numa psican\u00e1lise \u2013 e quem j\u00e1 frequentou um div\u00e3 sabe do que estou falando \u2013 somos confrontados, ao contr\u00e1rio, com a separa\u00e7\u00e3o e a n\u00e3o coalesc\u00eancia entre os modos de gozo que o tamponamento do objeto pela fantasia realiza de forma prec\u00e1ria e mal sucedida nas neuroses. Para o homem, operar essa separa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para n\u00e3o confundir a bunda com a saia e \u201cdeixar a menina sambar em paz\u201d. Para uma mulher, operar essa separa\u00e7\u00e3o implica uma experi\u00eancia corporal in\u00e9dita; eu diria, carnavalesca: na carne!<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de uma mulher ter um corpo \u2013 e, por favor, n\u00e3o estou falando de anatomia, h\u00e1 mulheres sem \u00fatero, sem ov\u00e1rios, sem trompas e com tromba \u2013 e de us\u00e1-lo e abus\u00e1-lo para fazer desejar e gozar, n\u00e3o quer dizer que ela esteja se oferecendo como objeto de consumo\u2026 N\u00e3o podemos colocar na bunda da Anitta o que \u00e9 da responsabilidade pol\u00edtica e \u00e9tica do discurso do capitalista. Ou voc\u00ea acha que porque usa seu terno Armani, ou reza o pai nosso, ou d\u00e1 aulas na universidade est\u00e1 sendo menos consumido? No capitalismo atual, \u00e9 sempre bom lembrar que h\u00e1 bundas e bundas, todas, entretanto, prontas n\u00e3o para serem comidas, mas para serem chutadas. N\u00e3o \u00e9 porque a Anitta tem uma bunda gostosa &amp; com celulite (um pouco de l\u00f3gica paraconsistente cai bem) que ela est\u00e1 se oferecendo para ser consumida e muito menos estuprada. Por outro lado, \u00e9 bom se acostumar com a possibilidade de n\u00e3o gostar da m\u00fasica e da est\u00e9tica da Anitta &amp; n\u00e3o achar que ela refor\u00e7a o estere\u00f3tipo de mulher objeto porque mostra a bunda (um pouco de l\u00f3gica paracompleta cai bem).<\/p>\n\n\n\n<p>O que as mulheres do samba e do funk nos ensinam a n\u00f3s, homens brancos crist\u00e3os todos f\u00e1licos \u2013 marxistas ou n\u00e3o \u2013 \u00e9 que h\u00e1 algo na mulher que escapa \u00e0 raz\u00e3o universalizante, e que o corpo de uma mulher sempre resistir\u00e1 a ser reduzido a um objeto, por mais que o discurso dominante se esforce para faz\u00ea-lo, porque ele \u00e9 um misterioso corpo falante, desejante e gozante. \u00c9 melhor se acostumar com isso! Para os homens, fa\u00e7o minhas as palavras de Chico Buarque: \u201cou tira ela da cabe\u00e7a ou mere\u00e7a a mo\u00e7a que voc\u00ea tem\u201d \u2013 e acrescento: ou que voc\u00ea quer ter. Para as \u201cn\u00e3o todas f\u00e1licas\u201d com qualquer tipo de genit\u00e1lia \u2013 desnuda ou n\u00e3o \u2013, com ou sem celulite, com ou sem adiposidades e menstrua\u00e7\u00e3o, com ou sem silicone, recomendo um ensaio de escola de samba \u2013 n\u00e3o precisa ser a Mangueira, mas se der, melhor! \u2013 para vislumbrar algo do outro gozo\u2026 Ainda d\u00e1 tempo!<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Sobre a&nbsp;Autora:<\/h4>\n\n\n\n<p>Ana Laura Prates Pacheco \u00e9 psicanalista.&nbsp;Fez sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, especializa\u00e7\u00e3o, mestrado e doutorado na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e seu p\u00f3s-doutorado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).<\/p>\n\n\n\n<p>Autora dos Livros: <\/p>\n\n\n\n<p>Feminilidade e Experi\u00eancia Psicanal\u00edtica publicado pela Larvatus Prodeo Editora e <\/p>\n\n\n\n<p>Da Fantasia de Inf\u00e2ncia ao Infantil na Fantasia<strong> <\/strong>(atualmente esgotado. Ser\u00e1 publicado em breve tamb\u00e9m pela Larvatus Prodeo Editora)<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Ana Laura Prates Texto publicado originalmente pela Editora Aller em 22\/01\/2018:&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-290","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/290","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=290"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/290\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":294,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/290\/revisions\/294"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=290"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=290"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/larvatusprodeo.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=290"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}