Publicado em: 31/12/20

Ana Laura Prates

Publicado originalmente em https://jornalggn.com.br/artigos/carta-para-as-mulheres-na-pandemia-por-ana-laura-prates/

Caras mulheres na Pandemia,

Os nomes aqui citados são – pela visibilidade que ganharam – símbolos de outras mulheres invisíveis que foram atacadas, caluniadas, violentadas, difamadas, agredidas, exploradas e abusadas, em 2020, durante a Pandemia.

Cara Menina de 10 anos estuprada cujo direito ao aborto legal foi judicializado. Caras Mirtes Renata Souza, Mariana Ferrer, Dani Calabresa, Isa Penna, Luiza Erundina, Manuela D’Avila, Carol Solberg, Dilma Rousseff. Dizer que espero encontrá-las bem seria, no mínimo, de mau gosto. Então, digo que espero encontrá-las vivas, em corpo, força e desejo. Muitas, entretanto, não estão mais aqui para ler essa carta. Que estejamos, então, à altura das que se foram. Que esta carta também seja uma homenagem a elas. Em memória, cara Senhora empregada doméstica primeira vitima da COVID-19 no Rio de Janeiro após ser contaminada pelos patrões, caras Emily Victoria Silva dos Santos e Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, cara Nicette Bruno, cara Viviane Viera.

Março de 2020 foi a data oficial da chegada da Pandemia da COVID-19 aqui no Brasil. Alguns meses depois já tínhamos percebido que ela não atingia a todos os cidadãos e cidadãs da mesma forma. O corona-vírus – essa entidade pouco conhecida e que não chega sequer a ser um ser vivo – pode até não ver cara nem coração. Na verdade, ninguém ainda sabe por que, parece que prefere caras mais enrugadas e corações fragilizados pelo tempo. A Pandemia, entretanto, enquanto fenômeno de saúde coletiva não se restringe ao vírus. Ela envolve questões territoriais, econômicas, políticas e sociais. Ela inclui diferenças de raça e gênero. Ela, de democrática não tem nada, escancarando desigualdades e criando vulnerabilidades que vão muito além das condições físicas e orgânicas individuais. Ela escolhe corpos que passarão por essa experiência de modos completamente diversos. Dentre eles o meu. Dentre eles o de vocês!

Mas, afinal, quem são vocês, ou melhor, quem somos nós mulheres na Pandemia? Nós, que nos nomeamos mulheres. Mulher? O que é uma mulher? Como Psicanalista sustento que não existe uma essência para responder a essa pergunta, muito menos uma essência biológica. E sabemos, desde Simone de Beauvoir, que ninguém nasce mulher, torna-se mulher. Mas isso não impede que existam mulheres e que, em sua multiplicidade, elas possam fazer laços e redes. As mulheres são múltiplas e é impossível e nem sequer desejável formar uma totalidade ou forçar uma unidade nessa multiplicidade. Para isso já existe o falo do lado de lá, formando conjuntos fechados e uniformes. Mulheres formam um tipo de conjunto disperso que mais parece uma constelação.

Pois bem, com o passar dos meses, como eu ia dizendo, fui percebendo que a Pandemia não atingia a todos e do mesmo modo e, além disso, ela atingia as mulheres – que são “não-todas” – de modo especial Os números são alarmantes: o aumento significativo de feminicídio, violência doméstica e abusos sexuais, inclusive de vulneráveis (aumento de 40% das denúncias segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública). A Pandemia comprovava a suspeita de que o lar – considerado o ambiente natural das mulheres por uma entidade decadente chamada tradicional família burguesa – era, na verdade, o lugar mais perigoso para ficarmos. O bom conselho “fica em casa!” significava, paradoxalmente, risco de morte para muitas de nós.

Por outro lado, e não menos significativo e escandaloso do que essa constatação é o fato de que somos nós mulheres quem seguramos a onda para a tal da roda da economia girar. Somos nós que tomamos conta das crianças para que os homens saiam para trabalhar. E quando decidimos ou precisamos trabalhar também, deixamos nossos filhos com outras mulheres que, por sua vez, precisam da ajuda de outras mulheres num ciclo sem fim que inclui instituições especializadas como creches e escolas cujas cuidadoras e educadoras também são mulheres, em sua maioria (8 em cada 10 professores na educação básica são mulheres).

Na área da saúde, igualmente, somos nós (metade das médicas e maioria absoluta de enfermeiras e auxiliares) a estar lá, na linha de frente, ou no pano de fundo limpando os hospitais. E mesmo que sejamos de classes sociais mais favorecidas, ainda assim, somos nós que temos feito jornadas triplas e assumido o cuidado de nossas casas, filhos e, muitas vezes, pais e sogros. A carga mental é uma noção que conhecemos intimamente, mas que apenas há alguns anos vem sendo estudada. Ela diz respeito a todo o planejamento que envolve a administração de uma casa e da chamada vida familiar, bem como os cuidados e responsabilidades envolvendo os filhos. Pois bem, ela aumentou de modo tão expressivo que, talvez pela primeira vez na vida tenhamos percebido claramente o quanto somos sobrecarregadas e porque vivemos estressadas, mesmo as privilegiadas da classe média branca.

Pois bem, caras mulheres. Essa situação toda me fez tomar uma iniciativa para que algumas de vocês tivessem voz e um lugar para falar de suas experiências, para que outas mulheres pudessem se beneficiar com elas. Daí surgiu o projeto “Mulheres na Pandemia”, para o qual convidei uma amiga jurista, a Margarete Pedroso que, com seu histórico de ativismo feminista, compôs nosso sentimento de responsabilidade a partir de nossos privilégios.  Semana após semana fomos convidando várias de vocês para falar sobre como estavam passando pela pandemia da COVID-19, e também sobre suas lutas cotidianas. No Brasil, quase 30 milhões de famílias são chefiadas por mulheres, embora elas sejam, em sua maioria, trabalhadoras informais. A Pandemia, bem como a necessidade da quarentena – ainda que parcial em nosso país – revelou uma rede de cuidados invisível sustentada por nós mulheres, sem a qual a sociedade não poderia funcionar do modo como estamos acostumados. Como podemos tornar mais visível essa rede, de modo que seja mais valorizada no mundo pós-pandemia? Como nossas vozes silenciadas podem ser escutadas? Como nossos corpos, em sua especificidade, estão vivendo esse momento? Como é ser mãe, adolescente, amante, prostituta, durante a pandemia? Como mulheres idosas estão lidando com essa situação?

Essas e outras questões foram debatidas com nossas convidadas. Começamos em junho falando de sororidade e rede de apoio entre mulheres e terminamos, em dezembro, falando sobre esperança e resistência.  Foram 7 meses nos quais recebemos mulheres de todo o Brasil, das mais diversas condições econômicas, sociais, sexuais, raciais, etc. Aprendemos com as jovens militantes antifascistas porque, mesmo na Pandemia, às vezes é preciso colocar o corpo na rua. As mulheres artistas, trabalhadoras de uma área já profundamente atacada pelo atual governo tiveram que se reinventar rapidamente. As mulheres com deficiência transmitiram a sobreposição de condições vulnerabilizantes, quando machismo e capacitismo se retroalimentam. As mulheres pela inclusão vieram para afirmar que precisamos mudar a escola para que nela caibam todas as crianças, ao invés de mudar as crianças com deficiência de escola. Debatemos o delicado tema da volta às aulas que atinge de modo direto as mulheres, tanto do lado das famílias, quando das trabalhadoras das escolas.

Recebemos e nos emocionamos com a dignidade das mulheres indígenas, população abandonada pelas políticas públicas, deixadas a ermo, sem barreira sanitária e cuidados mínimos, mas, ao mesmo tempo resgatando a ciência ancentral e tradicional de seus povos e lutando com a determinação de seu ativismo decidido. A ocupação mulheres pretas encheu nossas redes sociais de Gradas Kilombas, Angelas Davis, Virgínias Bicudos, Neusas Santos, Conceições Evaristos, Léias Gonzales e Djamilas Ribeiros. As egressas do sistema penitenciário foram um tapa na cara da hipocrisia do sistema que criminaliza muitas mães de família e as pune de modo desumano por sua condição social ou racial.

Constatamos que os preconceitos relativos às lésbicas e bissexuais se recrudesceram na quarentena. Mulheres trans também compuseram nossa constelação, com seus corpos alvo de violência e exclusão. Escutamos a luta das putas por reconhecimento profissional e seu repúdio à exploração sexual infantil. A terrível e endêmica situação da violência sexual foi muito agravada na Pandemia escancarando a realidade de que o agressor é, na maioria das vezes, bastante familiar às vítimas. Tivemos a coragem de sustentar que a defesa pela legalização do aborto é a defesa da vida contra a hipocrisia. Essa bandeira é solidária à luta contra a cultura do estupro que objetifica nossos corpos, transformando as vítimas em rés na mesma proporção em que inocenta os agressores.

Quando chegamos em 100.000 mortos, enlutadas, escutamos as mulheres da área da saúde lutando contra a Pandemia e suas sequelas e indefinições. Recebemos mulheres cientistas, área desprezada e negligenciada pelo atual governo negacionista e destacamos a importância da interdisciplinaridade para combater a Pandemia. As mulheres na mídia trouxeram a relevância de uma imprensa livre e crítica para a sustentação da democracia, sobretudo na era das fakenews e do capitalismo de vigilância.

As mulheres do MST nos mostraram a garra das camponesas e a importância da segurança alimentar e do direito à terra. As mulheres na política destacaram – e seu alerta ficou ainda mais importante após as eleições municipais – o quanto é fundamental que possamos ocupar funções públicas para defender nossos direitos. O mesmo recado foi dado pelas incríveis mulheres que passam a vida a defender os direitos humanos, bem como pelas pioneiras do feminismo no Brasil que tivemos a honra de receber. O cuidado com a terra e com a vida passa também pelos direitos reprodutivos. Foi emocionante escutar as mulheres que gestaram e pariram durante a Pandemia, testemunhando mais uma vez o quanto essa situação excepcional sublinha violências e injustiças já consolidadas.

Muitas de vocês alertaram para o fato de que, muitas vezes, o amor é usado como álibi para nos explorar e submeter. Precisamos com urgência rever nossos conceitos sobre amor, dedicação e doação e é igualmente urgente incluir os homens nesse debate. Somos tão diferentes, díspares, por vezes dispersas, mas unidas pela luta contra o machismo estrutural, que sequestra nossos corpos e por vezes nos mata, mas não cala nossa alegria e nossa voz. De mãos dadas com essas mulheres, e tantas outras, somos mães, irmãs e filhas na Pandemia, testemunhando com nossos corpos “essa estranha mania de ter fé na vida”.

Finalizo essa carta agradecendo por tudo o que aprendi com vocês, o quanto foi importante, reconhecendo nossa diversidade e, principalmente os privilégios de algumas de nós, sentir que não estamos tão sós. Com vocês aprendi, sobretudo, que não é possível hierarquizar sofrimentos, que dores e lutas não se medem, que servidão voluntária não é amor, e que o machismo – e toda a violência e desigualdade trazidas em seu bojo – é um mal a ser combatido a cada minuto, começando dentro de nós.

Ana Laura Prates é psicanalista, Escritora e Editora. Doutora pelo IPUSP. Pós-doutorado na UERJ. Pesquisadora convidada do LABEURB / UNICAMP. AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – FCL-SP. Autora, dentre outros, de “Feminilidade e experiência Psicanalítica”, “Da fantasia de infância ao infantil na fantasia” e “La letra: de la carta al nudo”. Colunista do Jornal GGN.

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