heresia lacaniana


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A coleção Heresia Lacaniana publica livros autorais ou coletâneas de artigos que tenham como referência o rigor da obra de Sigmund Freud e a orientação do ensino de Jacques Lacan, contribuindo com a manutenção da Psicanálise no mundo contemporâneo e com a presença do discurso do psicanalista nos demais laços sociais predominantes na Polis.


Heresia: palavra que etimologicamente, remete a uma escolha. Em alguns textos antigos, incluindo a Bíblia, hairesis poderia também significar opinião (doxa), dando margem a diversas interpretações.  Seu uso, entretanto, se estabilizou e passou a se referir a opiniões contrárias às doutrinas e aos dogmas da Igreja, ou seja, uma escolha dissidente daquela que seria a opinião verdadeira, ortodoxa. 

Ao longo da história, sabemos o destino reservado àqueles considerados hereges.

Mas porque trazer para a psicanálise uma palavra do campo da religião? 

Foi Lacan quem, no Seminário 11 Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise, fez alusão a uma posição de exclusão em relação ao dogmatismo vigente. Ele acabara de romper o vínculo institucional com a IPA (International Psychoanalisys Association), resultado de um processo que transcorreu por 10 anos, no final do qual ele veio a perder o título de Analista Didata. 

Na ocasião, ele comparou sua posição à excomunhão do judaísmo sofrida pelo filósofo Espinosa cuja obra, “Tratado teológico-político”, também foi banida, posteriormente, por teólogos cristãos. 

Em diversos momentos Lacan denunciou o funcionamento da IPA, que representa a ortodoxia no campo psicanalítico, equiparando-o ao da Igreja no que tange à estrutura dos laços sociais, tal como Freud descreve no texto Psicologia das massas e análise do eu, ou seja, um tipo de relação entre os pares sustentada pela identificação ao líder, nesse caso, a partir da relação com o saber.

Em 1964, Lacan propõe um novo modo de formação para os psicanalistas, resgatando o sentido grego de Escola para batizá-lo: lugar de conferências, debates e de pensamento livre. 

Ele funda, assim, a Escola de Psicanálise, que subverte exatamente a relação entre o saber e a verdade, de modo coerente com aquela trazida pelo conceito de inconsciente e a subversão do sujeito tributária desse sujeito. 

A noção de psicanalítica de sujeito, embora historicamente relacionada às religiões monoteístas e, sobretudo, ao discurso da ciência é, ao mesmo tempo, radicalmente original na cultura. Sujeitado à linguagem simbólica que o determina, o sujeito do inconsciente empresta sua consistência da formação de uma imagem corporal. A relação entre linguagem e corpo constrói nossa realidade da fantasia ou a realidade psíquica, como diria Freud. 

Mas essa relação, entretanto, jamais será harmônica e complementar. Ela produz, por um lado, um excesso sistemático que não pode ser simbolizado e que chamamos de gozo e, por outro lado, uma falta constitutiva que chamamos de desejo.  

Esse desencontro estrutural entre linguagem e corpo produz a maldição do sexo, ou seja, o fato de que não existe um objeto ideal para o desejo humano que possa satisfazê-lo. 

O desejo é, na verdade, causado por um furo que ciframos com a letra a, na notação lacaniana: objeto a. Esse real está sempre em jogo, desnaturalizando as concepções triviais de homem e mulher, ou seja, não há proporção entre os sexos e eles não se complementam.

Nos anos 70, Lacan escreve essa desnaturalização utilizando um objeto topológico, o nó ou enlace borromeo, o qual, por suas particularíssimas peculiaridades permite operar uma homologia com o espaço do ser falante, enlaçando os registros do Real, do Simbólico e do Imaginário: RSI, três letras que se pronunciadas em francês soam como HERESIE. 




Voltamos à Heresia, portanto, não mais apenas pela via da etimologia, mas pela via da homofonia, mais coerente com a predominância da função poética da linguagem enquanto matéria prima com a qual o psicanalista opera sob transferência. 

Heresia lacaniana retoma, portanto, a trindade, mas não mais para, a partir de três, fazer Um; antes, para apontar a impossibilidade de alcançar uma totalidade. O três no enlace borromeu é cardinal, ou seja, não há ordem nem prevalência de uma dimensão sobre as outras duas. Assim sendo, ele é a um só tempo Real, Simbólico e Imaginário, na medida em que ele se mostra em sua existência no corpo vivo de quem goza; se escreve na insistência da palavra que mata a coisa; e se imagina dando consistência ao sentido comum. Eis o seu segredo, sua impossibilidade de fazer uma única consistência. As características desse tipo de enlace têm para Lacan, uma inestimável utilidade clínica. Três letras (RSI). Três modos de gozo: o gozo fálico, o gozo do sentido e o gozo Outro.  Mas, também, três nomes para nossa dor de ex-sistir. O sofrimento humano em si mesmo não é assunto do psicanalista, mas pôde ser formalizado e tratado – na experiência clínica sob transferência que chamamos Psicanálise – desde que Freud o nomeou: Inibição, Sintoma, Angústia (ISA). 


Desde Freud, e ainda no século XXI, entretanto, continua sendo pelo Sintoma – qualquer que seja seu nome contemporâneo: fibromialgia, TOC, ou TDH –, que podemos passar ao discurso analítico. É pelo Sintoma que, através do simbólico, “identificamos o que se produz no campo do real” (RSI. p. 21). E é justamente com o Sintoma – o efeito do simbólico no real – que a Psicanálise opera. É a partir da prática da tagarelice que podemos, nas palavras de Lacan, manipular qualquer coisa do Real. Manipular qualquer coisa do Real: eis a heresia lacaniana.

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O Desejo
nas Psicoses
 
Feminilidade e Experiência Psicanalítica
O sujeito na entrada da estação
 
Misoginia e Psicanálise

 
Adolescer no real – Ensaios sobre esse sujeito adolescente 



Conselho Editorial


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Ana Laura Prates

Coordenadora

Psicanalista, Escritora e Editora. Doutora pelo IPUSP. Pós-doutorado na UERJ. Pesquisadora convidada do LABEURB / UNICAMP. AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – FCL-SP. Autora, dentre outros, de “Feminilidade e experiência Psicanalítica”, “Da fantasia de infância ao infantil na fantasia” e “La letra: de la carta al nudo”. Colunista do Jornal GGN.

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Maria Claudia Formigoni

Coordenadora

Psicanalista, Psicóloga, Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP. Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano. Coordenadora de Rede de Pesquisa Psicanálise e Infância do FCL-SP.

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Gabriel Lombardi

Psicanalista. AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano. Doutor em Psicologia pela Universidade de Buenos Aires (UBA). Diretor do Instituto de Pesquisas em Psicologia, Professor titular e Diretor de Clínica de Adultos da UBA. Autor, dentre outros, de “L’aventure mathématique de Cantor, Gödel et Turing”, “Clínica y lógica de la autorreferencia” e “La libertad en psicoanálisis”

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Marcos Barbai

Linguista e Psicanalista. Mestre e Doutor em Linguística pela UNICAMP. Estágio de Pós-doutorado na Université de la Sorbonne Nouvelle – Paris III, França. Professor do Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural IEL/Labjor, na Unicamp. Linhas de Pesquisa: Cultura Científica e Sociedade; e Informação, Comunicação, Tecnologia e Sociedade.


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Beatriz Elena Maya Restrepo

Psicanalista. AME da Escola dos Fóruns do Campo Lacaniano, Membro do Fórum de Medellín e do Fórum de Pereira. Mestre em Psicanálise, Cultura e Vínculo Social da Universidad de Antioquia. Autora do libro “Psicoanalisis y poesía un desciframiento del Bien-decir”

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Raul Albino Pacheco Filho

Psicanalista. AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (EPFCL – Brasil) e do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo (pertencente à Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano), onde coordena a Rede de Pesquisa Psicanálise e Saúde Pública.

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Antonio Quinet

Psicanalista, AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Doutor em Filosofia pela Universidade Paris 8, Pós Doutor pela PUC-SP, dramaturgo, professor do programa de pós-graduação em Psicanálise, Saúde e Sociedade da UVA, encenador e diretor da Cia. Inconsciente em Cena. Autor, entre outros, de “O Inconsciente Teatral”, “Um Olhar a Mais – Ver e Ser Visto na Psicanálise”, “La cité et ses maítres fous”, “Lacan’s clinical technique” e de diversas peças de teatro.

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