As máscaras sempre fascinaram a humanidade. Do uso ritualístico dionisíaco, aos bailes de carnaval, passando pelo teatro, elas a um só tempo fascinam, excitam, emocionam, provocam temor ou riso, pelo jogo constante que produzem entre a ocultação e a revelação. Mas, afinal, o que elas escondem e o que mostram quando caem? Essa é a questão mais intrigante colocada em cena pela máscara: a complexa relação entre a verdade e a aparência, tradicionalmente pensadas como opostas. O dito popular afirma que as aparências enganam; no entanto, não é tão simples definir o que se encontra por traz das aparências.  A verdade por de traz da máscara pode ser o fato de que, ali, não haja nada mais que o vazio. Ou, em outras palavras, que não temos outra forma de estarmos no mundo a não ser nos identificando a algum traço ou marca oferecido pela linguagem que nos humaniza, e com essa marca construir uma imagem na qual possamos nos reconhecer 

Seria a vida, então, um grande baile de máscaras? Haveria, por assim dizer, um disfarce mais verdadeiro que os outros?  A máscara que cada um usa para se ocultar poderia, ela mesma, revelar algo mais real do que aquilo que se quer esconder?  O que julgamos que somos – o nome, o papel social, o sexo – não deixa de ser uma máscara colada em nossa pele. Resta saber até que ponto se pode escolher a máscara que vamos usar na próxima festa à fantasia.   

O modo como os sonhos são construídos, apontam que a fantasia nos é estrutural: disfarçamos algumas ideias, principalmente, para tentarmos enganar a nós mesmos. O pensamento que disfarça, portanto, pode ser a própria verdade da máscara. Os disfarces, entretanto, deixam rastros e restos que permitem a interpretação dos sonhos que, mesmo assim, sempre tem um limite. Distância mínima entre ser e parecer. Penso, então sou – como queria Descartes?  Ou sou, onde não penso – como subverteu Freud? Da ciência moderna à descoberta do inconsciente, seguimos caminhando mascaradosLarvatus Prodeo. Não foram poucos aqueles que tiveram que se mascarar para passar suas ideias e conhecimentos. Não foram poucas as descobertas e invenções que tiveram que ser disfarçadas para serem transmitidas.  Entre o ocultismo, as sociedades secretas e a razão esclarecida, são múltiplas e por vezes contraditórias as correspondências entre o saber e o semblante, na sua relação com a verdade.  

O problema, portanto, é clássico, mas se atualiza de modo intenso no mundo contemporâneo, no qual a verdade parece ter se pulverizado. Na sociedade do espetáculo, na era do “Black mirror”, das Fake News e da superexposição nas redes sociais, será que as máscaras foram depostas ou estão gastas de tanto serem usadas? Questão que aponta para a dimensão ética – e não moral – da relação entre os semblantes e o real, aponta para a função do véu do pudor e para os limites do que se pode ou não dizer. Em tempos de exposições obscenas, nas quais o menos relevante são os fatos supostamente privados que se tornam públicos e o mais impróprio é a estética amoral com a qual esses fatos se publicam, não podemos responder com a fobia pudica, a reserva cínica, ou a discrição elitista. Antes, pelo avesso do avesso, mais do que nunca se faz necessário revisar nossa relação com a máscara e seus destinos. 

Larvatus Prodeo. Avançamos mascarados representando nossos papeis não importa se como protagonistas ou figurantes. A peça do Cotidiano engendra mais cenas, mais atos, mais espetáculos. Traz outras tantas dúvidas, questionamentos, perigos, ameaças veladas ou explícitas, algumas respostas, um infindável número de novas perguntas e incertezas. Avançamos mascarados encobrindo nossas curiosidades, temores, contradições. Avançamos mascarados preservando nossos pensamentos, fantasias, desejos, e convicções. Avançamos mascarados buscando um caminho para a construção da nossa limitada liberdade, que nos impulsiona a seguirmos sonhando, mas de olhos bem abertos.  

Da ciência moderna à descoberta do inconsciente, seguimos caminhando mascarados: Larvatus Prodeo.


Baile de Máscaras


Seria a vida um grande baile de máscaras? Haveria um disfarce mais verdadeiro que os outros? A máscara que cada um usa para se ocultar poderia, ela mesma, revelar algo mais real do que aquilo que se quer esconder? O que julgamos que somos – o nome, o papel social, o sexo – não deixa de ser uma máscara colada em nossa pele. Resta saber até que ponto se pode escolher a máscara que vamos usar na próxima festa à fantasia.

Penso, então sou – como queria Descartes? Ou sou, onde não penso – como subverteu Freud? Da ciência moderna à descoberta do inconsciente, seguimos caminhando mascarados: Larvatus Prodeo. Não foram poucos aqueles que tiveram que se mascarar para passar suas ideias e conhecimentos. Não foram poucas as descobertas e invenções que tiveram que ser disfarçadas para serem transmitidas.

Na sociedade do espetáculo, na era do “Black mirror”, das Fake News e da superexposição nas redes sociais, será que as máscaras foram depostas ou estão gastas de tanto serem usadas?

Larvatus Prodeo. Avançamos mascarados representando nossos papeis não importa se como protagonistas ou figurantes. Avançamos mascarados encobrindo nossas curiosidades, temores, contradições. Avançamos mascarados preservando nossos pensamentos, fantasias, desejos, e convicções. Avançamos mascarados buscando um caminho para a construção da nossa limitada liberdade, que nos impulsiona a seguirmos sonhando, mas de olhos bem abertos.

Na sociedade do espetáculo, na era do “Black mirror”, das Fake News e da superexposição nas redes sociais, as máscaras foram depostas ou estão gastas de tanto serem usadas?

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